“Coisas que a gente se esquece de dizer/ frases que o vento vem às vezes me lembrar/ coisas que ficaram muito tempo por dizer/ na canção do vento não se cansam de voar”. Esse verso é de Ronaldo Bastos, na canção “O Trem Azul”, de Lô Borges, (ambos, na liderança de Milton Nascimento formaram na dácada de 70 o Clube da Esquina, um dos principais movimentos da MPB que alcançou o mundo).
A letra é um tapa no orgulho de quem pensa que criou algo que antes não existia. Dá-nos a idéia de que o que é novidade não passa de uma mera recriação do que já existe, ou, uma revelação do que estava encoberto; ou, outra forma de dizer o que já foi dito.
Percebamos que a própria letra da música revela a intenção dos autores, pois a mesma, embora escrita de forma bela e peculiar, seja um outro jeito de dizer o que o rei Salomão há três mil anos já havia dito, inspirado por Aquele que lhe concedeu sabedoria: “O que foi é o que há de ser; e o que se fez, isso se tornará a fazer; nada há, pois, novo debaixo do sol”. (Eclesiastes 1: 09).
Poderíamos citar outras canções que contém verdades absolutas cuja fonte é Deus. Cito: “O mar quando quebra na praia é bonito demais”, de Dorival Caymmi; “Quando entrar setembro e a Boa Nova andar nos campos/ quero ver crescer nossa voz no que falta sonhar/…quero ver crescer o perdão onde a gente plantou…”, de Beto Guedes e Ronaldo Bastos. Ainda Renato Russo “É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã…”, além de tantas outras.
Onde quero chegar?
Creio que o sagrado está presente não somente dentro dos nossos arraiais. Aliás, lamentavelmente há muito de profano em nossas tribos que chamamos de “meio evangélico”, “meio gospel”, e “meio católico”. Faço estas citações tendo em vista que, em tese, esses meios são os que pregam o Evangelho.
Pensando bem, essa palavra “meio” chega a ganhar duplo sentido. O que é meio deixa de ser inteiro, integral, completo; em outras palavras, nem frio, nem quente, por isto “…estou a ponto de vomitar-te de minha boca”. Apocalípse 3:16.
Deus usa quem quer, independente desses lugares que chamamos de ”sagrados”. Os valores do Reino estão presentes onde menos se esperam. Lá fora as pedras estão clamando e até proclamando com honestidade, integridade e coerência, o que deveríamos fazer tão bem quanto, já que nem sempre conseguimos fazer melhor.
Faço parte de uma instituição que chamamos de religiosa, e não desprezo, tem a sua importância; porém, a cada dia me sinto mais distante da possibilidade de me apegar a ela como sendo algo sagrado em si mesma.
Não sacralizo templos, prédios, instituições, denominações, religiões, dogmas, nem paredes, nem plataformas, nem púlpitos, nem fachadas de igrejas. A beleza divina, além da natureza e a criação em si, sobremodo está em pessoas.
O sagrado habita o nosso coração enganoso, mas que sabe se arrepender, se corrigir na graça de Deus. É aí que o que é santo se revela e daí seus frutos se propagam. São sinalizações da justiça do Reino de Deus aqui e agora, mesmo que em parte!
Mas o sagrado se faz presente também no coração do artista que tem fome e sede de justiça e expressa isto através de sua arte. Do intelectual ateu, que chega a ser mais profeta que muitos religiosos. Este vai à imprensa apaixonadamente denunciar mazelas em nome da justiça através de seus escritos.
Já dizia Chaplin: “Sois homens, não máquinas!” E quando alguém se sensibiliza diante das injustiças sociais e toma alguma atitude, desprovido de egoísmo e vaidades pessoais, isto sinaliza o Reino de Deus.
Que nossa música e nossos textos, aqui e acolá, comprometam-se acima de tudo com a gramática da vida, não apenas com a gramática das expressões bem colocadas em nossos versos, embora isso não seja qualquer coisa. Que cantemos com paixão e fé o que não conseguimos conter em nós mesmos de tão grande que é: as virtudes do Reino, que “está no meio de vós”, disse Jesus.
Esses, que muitas vezes chamamos de ímpios, muito têm a nos ensinar. Não vamos os imitar no seu modo de viver, que não glorifica a Deus (embora alguns sigam Jesus e não saibam ainda); mas temos muito a imitá-los na sua coerência e preocupação com o mundo, e expressar tudo isso em canção, em poesia, em proclamação que fujam ao lugar comum; casando o que pensamos com o que expressamos, com verdade e beleza.
Já se foi o tempo em que a nomenclatura ”evangélico” significou algo tão importante para mim. Tal palavra já perdeu seu sentido original. Prefiro voltar ao começo e dizer do privilégio de apenas ser um discípulo do Mestre Jesus de Nazaré e serví-lO por onde eu passar, buscando a cada momento discernir os sinais do Reino que há de vir em sua plenitude!
E assim vou cantando sobre as coisas que acabo de escrever: ”…na canção do vento não se cansam de voar…”
“O Sagrado não é segredo no coração de um artista, que por vezes, mesmo sangrado, canta. Noutras, é segregado por quem só se agrega aos que congregam em lugares nem sempre sagrados”. M.F.

Publicado por Os valores do Reino de Deus na MPB | PavaBlog em agosto 29, 2010 às 3:01 pm r r
[...] Via Moisés França Blog [...]
Publicado por Leitura Subversiva em setembro 6, 2010 às 1:23 pm r r
Gostei muito desse post, e das idéias nele contidas.
Estou começando um blog e queria te pedir permissão para postá-lo lá, citando, é claro, a devida fonte.
Gde Abço
Publicado por pr claudiney duarte em janeiro 5, 2011 às 10:04 am r r
A arte, algumas vezes revela verdades como resultado da imagem de Deus ainda presente no homem caído, mas de forma resumida porque esta imagem encontra-se embaçada. O problema não é a assimilação da verdade, mas até que ponto aquele que recebe a mensagem tem capacidade para discernir a verdade da mentira. Recolher pérolas em músicas, poemas ou arte não para é uma tarefa possível para aqueles que ainda não amadureceram o suficiente rejeitarem aquilo que sutilmente é anti-bíblico. Certamente que a igreja evangélica por sí só não é a garantia da verdade, só JESUS É A VERDADE, portanto ela só é verdadeira ( igreja local/ denominação) se estiver em acordo com a Palavra.
Publicado por Jasiel Calixto em janeiro 27, 2011 às 6:26 pm r r
Oi Moises,
Sou músico e por cinco anos fiquei afastado da música “mundana” por causa da influência da igreja em que eu participava ná época. Gostei muito do texto e me identifico com essa idéia. Postei o mesmo no meu blog citando a fonte.
Publicado por Franklin Rosa em fevereiro 13, 2011 às 2:39 am r r
Mano, sensacional o texto! Escrevi uma reflexão no meu blog e que foi postado também no Púlpito Cristão com o tema “O Evangelho que não é do “MEIO”, onde coloco a proposta de que sacralizamos o que é do demônio e demonizamos o que é e está sacramentado por natureza e nobreza! Nosso exclusivismo religioso nos priva de reconhecer o que é divinamente inspirado, quando o objeto em questão não tem sua fundamentação ou procedência do e ou no “MEIO”. No PC tomei pancada pra caraca. Alguns se identificaram e me apoiaram.Enfim,falem bem ou falem mal, falem… Um abraço, Franklin Rosa
Publicado por Iveraldo Pereira em fevereiro 14, 2011 às 1:09 pm r r
Olá Moises Franca, graça e paz.
A música Gentileza, da Marisa Monte Homenageando O profeta Gentileza (http://pt.wikipedia.org/wiki/Profeta_Gentileza), levou para o mundo inteiro uma mensagem divina, Veja um trecho da letra:
“por isso eu pergunto a você no mundo
se é mais inteligente o livro ou a sabedoria
o mundo é uma escola
a vida é um circo
amor palavra que liberta
já dizia o profeta”
“Gonzaguinha também o homenageou na música com o mesmo título “Gentileza” e diz:
Feito louco
Pelas ruas
Com sua fé
Gentileza
O profeta
E as palavras
Calmamente
Semeando
O amor
À vida
Aos humanos.
Seu conservo,
Iveraldo Pereira.
Publicado por Moises Franca em fevereiro 26, 2011 às 3:21 am r r
Ok, pessoal!
Que bom que não estou sozinho!
Deus é bom! A Ele a glória!
Graça e paz!