O polêmico mundo da música gospel

Publicado no site www.lideranca.org.br da SEPAL (Serviço de Evangelização para a América Latina) em fevereiro de 2008.

Por: Moisés França

Muitos já sabem que o Gospel é a Palavra de Deus cantada. Daí, a mistura: God (Deus) e spell (palavra). Imigrantes cristãos ingleses, ao descobrirem o “novo mundo” na América, já entoavam em suas reuniões o que os americanos hoje chamam de música Gospel.

Os ritmos variam, desde dançantes e expressivos, até em forma de baladas inspirativas. O Gospel se destacou mundialmente para o público não-evangélico através de cantores como Elvis Presley, Diana Ross, Marvin Gaye, dentre outros, principalmente cantores negros quando Martin Luther King pregava contra o racismo.

O Gospel, mais que um estilo, por incrível que pareça, é o gênero musical que deu origem ao Blues e ao Rock. É verdade, o Rock, que foi tão combatido entre evangélicos há alguns anos, nasceu do Gospel, contrariando a afirmação de Raul Seixas, que afiançou ser o diabo o pai do Rock.

Mas falando do que está entre nós brasileiros, o que chamamos de música gospel pouco tem a ver com o Gospel original, no que tange à sua estética. O músico faz baião e a gente diz que é música gospel, outro canta axé, reggae, funk, forró e a gente diz: isto é música gospel, simplesmente porque contém mensagem do Evangelho.

Demos este nome à música evangélica brasileira por, talvez, duas razões: primeira, estratégia para alcançar as pessoas sem dizer claramente que nossa música era evangélica, para não “espantar” e ganhar a mídia secular.

Segundo: por temor de dizermos “nossa música é evangélica”, e sofrer as rejeições advindas do preconceito, que era grande naquela época. Foi então no início da década de 80 que surgia o Movimento Gospel no Brasil, chegando a marcar presença até no território do Rock´n Rio 85, o chamado Jesus in Rio.

Creio ser bom reafirmarmos o papel do “nosso gospel” na estratégia de evangelização naquele contexto, em que crescer como igreja evangélica era a nossa bandeira. Queríamos alcançar a juventude para Cristo, principalmente, e a música, sendo moderna, seria um meio eficaz.

Portanto, Deus usou e usa a música gospel para converter pessoas a Ele, sem sombra de dúvidas, primeiro porque Deus usa quem quer, onde quer e como quer (uma mula que fala, até).

Segundo, assim como a música do povo de Deus no período de exílio na Babilônia impressionou os babilônicos, (eles pediam canções enquanto o mantinham cativo), nosso gospel impactou a mídia e consequentemente, as pessoas de um modo geral, que começavam a ficar antenadas nessa “nova” música, que antes era tida como careta e ultrapassada, mas então se tornara moderna, com os ritmos do momento.

Naquela ocasião já existiam, há algum tempo, grupos como Vencedores por Cristo, Milad, Logos, Quarteto Vida, Expresso Luz, dentre outros poucos, que faziam uma música que mais tinha a ver com as raízes brasileiras e certamente, os ministérios de louvor de Ademar de Campos, Asaf Borba, Benê Gomes, etc. Estes ainda não tinham conquistado a mídia secular.

O Movimento Gospel tomou forma e se solidificou mesmo através dos grupos Rebanhão, Katsbarnéa, Jovens da Verdade, Sal da Terra, Sinal de Alerta e outros roqueiros de Cristo.

Mas o que me leva a refletir sobre este tema depois de ter feito toda essa abordagem é que lamentavelente a música Gospel no Brasil se perdeu do seu propósito original nesse esquema chamado “mercado gospel”, pois no início tudo era feito com o objetivo primordial de alcançar pessoas de fora, além, é claro, de edificar a igreja.

No início a polêmica se dava no que concernia aos rítmos. Hoje, na falta de coerência. Hoje as motivações mercadológicas ditam as regras. A ordem das gravadoras é: faça a música assim porque só assim é que vende. Já até existe uma fórmula: boa pitada de emoção, boa voz , antropocentrismo, triunfalismo e prosperidade nas letras,  poucos acordes simples, nada dissonantes, daí, é só bater no liquidificador chamado estúdio-produção. Pronto! Sucesso garantido.

Certa vez, alguém, de cargo elevado em uma grande gravadora me disse que minha música era boa, mas não era comercial, por isto não podia me contratar. Se era boa, não cabe a mim dizer que sim ou que não. Mas recebi mais como elogio o fato de minah música não ser comercial, o que é uma virtude nesse mercado gospel.

Sendo também cantor, corro o risco de levar pancada e ser mal interpretado. Mas não podemos ficar calados se queremos ser uma voz profética neste tempo e se nosso referencial de vida está bem distante dessa banalização das coisas de Deus. Fomos chamados para servir como Jesus e não para sermos aproveitadores do Evangelho.

A música gospel hoje está mais comprometida com o mercado que com o Reino de Deus. Não interessa ao mercado quando alguém faz música que leve as pessoas a pensar, a crescer na fé, a ser educada por ela. O negócio é dizer que a bênção vai chegar, é profetizar a prosperidade, dizer o que as pessoas gostam de ouvir e não o que precisam ouvir; outros vão pela adoração, porque adoração está em alta…

Seguem a última moda pelo bem dos interesses mercadológicos e não pela adoração em si, muito embora, não se possa negar, no meio disso tudo ainda haja ministérios sérios, graças a Deus!

Certamente que há aqueles que fazem uma música autêntica e ao mesmo tempo comercial, mas não fazem com interesses egocêntricos. Até aí, tudo bem e devemos respeitar. Mas são raríssimas excessões. Nem todo mundo gosta de música esteticamente bem elaborada. Isto acontece na música popular também.

Mas infelizmente prevalecem as segundas intenções. Não interessa ao mercado quando alguém grava um trabalho cujos temas se relacionam com cruz, caráter, arrependimento, negar-se a si mesmo… Como profissional que atua no mercado gospel há alguns anos percebo isto claramente.

Devo dizer que o mercado gospel em si é bom. Divulga, expande, leva ao alcance das pessoas materiais literários e musicais, dando caminho à divulgação de produçõs variadas e dá emprego a muita gente. Não vamos ter uma visão maniqueísta do mercado gospel, mas o que Deus está observando são as motivações dos corações.

Fazemos música, (ou escrevemos livros) cumprindo um própósito santo, com a intenção de glorificar a Deus e ser um instrumento de bênção na vida do outro ou estamos sendo, como disse Judas em sua epístola, “ministros do próprio ventre”?

Enfim, que o carisma não sobrepuje o caráter; que as influências dos artistas do “mundão” não superem a nossa busca pelo caráter de Cristo (digo influência nos hábitos e não nos estilos musicais); que cresça Jesus e diminuamos nós; que os valores dos cachês não ocupem mais  nosso coração que os valores do Reino.

Jesus não espera de nós virtuosismo, como músicos, mas honestidade como servos. Mesmo que nossa música gospel (ou cristã, ou evangélica) não seja (e não é) a melhor música do mundo, o que Deus espera é que sejamos coerentes naquilo que fazemos.

Jesus disse: “A hora vem e já chegou em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em Espírito e em verdade, porque o Pai procura a tais que assim O adoram”. João 4: 23. Que Deus nos abençoe e tenha misericórdia de nós.

Comentários do site da Sepal:
 

 

Amado Moisés…louvo a Deus pela sua vida e pela constatação de que ainda há pessoas com uma visão bíblica do que seja adoração através do louvor. Principalmente do que seja louvor a Deus. Que Deus continue abençoando a sua vida e iluminando o seu coração para entender o seu propósito e continuar agradando-o e servindo-o. Ainda que isso signifique desagradar e se expor a perseguições por parte dos homens. “Assim fizeram com os profetas antes de vós”.
Que Deus continue te abençoando abundantemente.

 

 Parabéns Moisés

(Escrita em 24/01/08 às 13:06 por Ramalho ) 

Cresci na fé ouvindo as lindas mensagens cantadas pela turma que você mencionou, além de ouvir você e é claro o grupo Hágios de quem sou admirador em Cristo. Tenho o prazer de ter em cd alguns trabalhos seus, gostaria de ter outros. Gostaria de um contato por e-mail para adquiri-los, nesta secura gospel de hoje, será um oásis!
Parabéns irmão!

 

Paz do Senhor!

Escrita em 11/02/08 às 14:44 por JUAREZ

Querido irmão gostei muito de sua matéria, sou musico e componho também
e quero incentivar aos outros levitas a comporem músicas com historia de vida verdadeira,  com seus testemunhos, pois hoje há tantas músicas tocadas dentro das igrejas que são influências negativas da mídia.
Vamos usar nossos dons e talentos que Deus nos deu e compor nosso louvor próprio a Deus. Sei que há muitos talentos dentro de sua igreja, use-os.

 

 

 

O polêmico mundo da música gospel

(Escrita em 09/03/08 às 23:08 por brother_costa)

Músicas gospel ou mercado gospel, é um polêmico interativo a analizarmos à luz dos evangelhos.Como dizem as escrituras: sim, sim e não, não, e o que passa disso é de procedência maligna…Resumidamente concluímos ou perguntamos; concorda Deus com esse comercio blasfemo feito dentro de todas as religiões? (…) Simplificando, Deus não abaliza qualquer tipo de comércio nos evangelhos, eu não me arriscaria a fazer vista grossa a esta maior e mais forte metodologia de blasfêmia que joga o testemunho de Cristo na lata do lixo. Ai dos que promovem o escândalo, melhor seria se matarem!

 

Sabedoria

(Escrita em 14/03/08 às 19:12 por josuepompeo)

É muito bom ler comentários coerentes de quem sabe colocar as coisas de forma clara e objetiva. Vivemos um momento onde os valores estão invertidos, valendo mais o “Ter” do que o “Ser”, infelizmente são muitos os casos no meio cristão.
Acredito cada vez mais que não devemos trazer o mundo para dentro da igreja, mas devemos levar a igreja para dentro do mundo, como sal e luz, pois assim diz a palavra do senhor. Precisamos aprender a depender de Deus seja cantando, pregando ou escrevendo as verdades bíblicas.

Em Cristo,

Escritor e evangelista Josué Pompeo

 

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Sobre Moises Franca

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3 respostas para O polêmico mundo da música gospel

  1. Roucinéa Moreira disse:

    A Paz do Senhor, prezado irmão Moisés!
    Grupo Hágios e Moisés França fizeram parte de minha juventude com Cristo em Cardoso Moreira/RJ, quando suas músicas elevavam minha alma ao Senhor em adoração!
    Ouví-lo é voltar no tempo e refletir como nos dias de hoje estamos carentes de canções cristãs realmente inspiradas pelo espírito santo.
    Louvo a Deus por sua vida e rogo ao nosso Pai para que o abençoe sempre!!
    Fraternalmente em Cristo,
    Roucinéa

  2. ANTONIO FRANCISCO LACERDA disse:

    Parabéns, Moisés França, ‘lenda viva’ da mais pura música gospel no Brasil!

    Selecionei essa parte do texto que tem a ver com a glória de Deus:
    “Fazemos música, (ou escrevemos livros) cumprindo um própósito santo, com a intenção de glorificar a Deus e ser um instrumento de bênção na vida do outro…”

    Aproveito para enviar nossa composição para sua apreciação e possível produção:
    “A GLÓRIA DE DEUS”

    Para o nosso meditar, uma história vou contar:
    Certa vez, Jesus, a dez leprosos, no caminho, fez purificar.
    Mas, um dos dez, ao constatar que estava limpo, quis voltar.
    E, aos pés de Cristo, muito lhe agradeceu,
    pondo-se a dar glória a Deus e, em alta voz, louvar!

    Viverei para a glória de Deus!… Para a glória de Deus, viverei!
    [e cantarei!… ] “AD MAJOREN GLORIAN DEI”: seja toda glória a Deus!

    Tudo que eu pensar se reflete em meu falar;
    nos meus atos, nos meus hábitos e o meu caráter faz, enfim, moldar.
    Tudo o que se possa amar, se algum louvor e virtude há;
    tudo o que é bom, verdadeiro, justo,
    honesto e puro, seja o que ocupe o meu pensar!

    Se o saber faz orgulhar, o Amor faz edificar.
    Enquanto a letra faz matar alguém, o Espírito faz vivificar.
    Queira, somente, se orgulhar em conhecer a Deus e O amar!
    E, no mais, gloriar-se na cruz
    do nosso Senhor Jesus, [que é] poderoso pra salvar!

    Sobre terra ou mar, farei o que Deus mandar,
    e irei até onde a Sua Graça – melhor que a vida – possa me guardar!
    Não posso me contentar com menos do que servir e amar
    a esse Deus, de tão maravilhoso…
    Pra Ele, até mesmo, eu pago para trabalhar!

    [Antônio Francisco Lacerda / Cataguases – Santa Margarida MG]

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